Em janeiro de 2026, a UNITA lamentou o "empobrecimento de famílias e empresas", denunciando uma cesta básica inacessível e afirmando que "o papel de um Presidente não é aumentar a pobreza para o seu povo" (Lusa/VerAngola). Em abril, voltou a recusar que Angola "normalize a sobrevivência como modo de vida", apontando a perda de poder de compra dos salários e o desemprego jovem. O MPLA contrapôs com a estabilidade e o investimento — "mais fábricas, mais escolas… mais dignidade para o povo angolano" —, recusando que o país seja "refém de ambições partidárias desmedidas". Por trás da disputa política está uma questão empírica: o que está, de facto, a acontecer às condições materiais de vida das famílias angolanas.
«A macro recupera em folha de Excel; a micro empobrece em mesa de jantar.»
01 · Uma privação que se agravou e não recuou
A pobreza vivida mede a privação material sentida — com que frequência, no último ano, faltaram cinco bens essenciais: comida, água potável, cuidados médicos, combustível para cozinhar e rendimento. A nossa série de inquéritos mostra uma deterioração nítida: entre 2019 e 2022, anos de recessão e inflação elevada, o LPI saltou de 1,71 para 1,99; em 2024, apesar do regresso do crescimento, manteve-se em 1,99. A fatia em pobreza elevada passou de pouco mais de um terço para quase metade da população, e o grupo "sem qualquer privação" praticamente desapareceu.
- Ronda 8 (2019): LPI 1,71 — 35% em pobreza elevada, 34% moderada, 7% nenhuma.
- Ronda 9 (2022): LPI 1,99 — 44% elevada, 34% moderada, 4% nenhuma.
- Ronda 10 (2024): LPI 1,99 — 46% elevada, 30% moderada, 5% nenhuma.
- DTA (2024, online): LPI 1,42 — 19% elevada, 44% moderada, 3% nenhuma (amostra telefónica de utilizadores de Internet, não comparável).
Esta trajetória ecoa o que já reportámos: em 2024, a saúde, o desemprego e a insegurança alimentar e hídrica encabeçavam as preocupações da juventude; e a maioria dos residentes rurais continuava privada de eletricidade fiável, incluindo apenas 6% com fornecimento confiável. A pobreza vivida é o denominador comum a estas privações.
02 · A economia recupera, a pobreza vivida não
O contraste entre os números macroeconómicos e a experiência das famílias é o cerne deste retrato. Depois de cinco anos de recessão (2016–2020), a economia voltou a crescer e acelerou para 4,4% em 2024, impulsionada pela recuperação do petróleo, dos diamantes, do comércio e da pesca. E, no entanto, é justamente nesse período de retoma que a pobreza vivida atinge o seu máximo.
Os dados macro reforçam o paradoxo. O Banco Mundial estimava que, em 2018, 52,9% dos angolanos (cerca de 16,5 milhões) viviam com menos de 3,65 dólares por dia, com um Gini de 51,3 — dos mais desiguais do mundo. O FMI regista um recuo da inflação, de 27,5% (dez. 2024) para 15,7% (dez. 2025) e 12,4% (mar. 2026). Mas a recuperação é "improvável que melhore os padrões de vida" no horizonte 2025–27 — e a privação sentida não cedeu.
«Cresceu o que se conta em volumes; encolheu o que se conta em qualidade.»
A Ovilongwa não toma partido no debate político. Mas os dados oferecem uma base empírica comum: independentemente da retórica, a pobreza vivida medida junto dos próprios cidadãos está nos seus níveis mais altos em meia década. É contra este indicador — e não contra projeções de PIB — que as políticas devem ser avaliadas.
03 · Quem é mais atingido: o mapa social da privação
A pobreza vivida não se distribui por igual. Cruzando o indicador com as características sociodemográficas dos inquiridos na Ronda 10 (2024), três clivagens sobressaem: o território, a escolaridade e a idade. A divisória mais forte é a rural–urbana: a pobreza elevada é quase o dobro no campo (65%) face à cidade (36%). Segue-se a escolaridade: desce de 59% entre os que têm o primário ou menos para 24% entre os de ensino superior. E agrava-se com a idade, dos 41% (18–25) para 60% (56+). Já entre homens e mulheres a diferença é mínima (45% vs 46%).
No plano geográfico, a privação é mais intensa no interior: Moxico (70%), Lunda Norte (69%) e Uíge (66%) lideram, enquanto Luanda (30%) e Cabinda (31%) registam os valores mais baixos. A insegurança alimentar severa atingia sobretudo a região Leste e a Huíla.
04 · A água: o sintoma mais visível
Entre os cinco bens essenciais, é o acesso a água potável que mais se degradou: ficar "sempre" sem água subiu de 16% (2019) para 24% (2024) — um em cada quatro. Combustível para cozinhar e cuidados médicos seguem o mesmo sentido. São privações que se acumulam sobre as mesmas famílias — rurais, com menos escolaridade e mais velhas.
05 · O que estes números (não) dizem
Três cautelas. As Rondas 8, 9 e 10 são amostras nacionais, presenciais e ponderadas, comparáveis entre si. O inquérito DTA é diferente: por telefone, junto de utilizadores de Internet (mais urbanos, jovens e escolarizados) e não ponderado — por isso o seu LPI mais baixo (1,42) não indica menos pobreza no país, mas que mede um segmento mais favorecido. A pobreza vivida mede privação sentida e auto-reportada, não rendimento monetário. Ao nível provincial, algumas bases são pequenas, pelo que as percentagens por província são indicativas.
06 · O que isto significa
A mensagem é sóbria: o crescimento macroeconómico, por si só, não está a reduzir a privação que os angolanos sentem. Sem políticas que cheguem diretamente às famílias — água, saúde, energia para cozinhar, rendimento —, e que priorizem o meio rural, o interior e os menos escolarizados, o regresso do PIB arrisca-se a ser uma recuperação sem recuperados. Reduzir a pobreza vivida exige priorizar os bens essenciais cuja falta mais se agravou (a começar pela água), proteger o poder de compra dos mais vulneráveis e medir o sucesso das políticas pelo que muda na mesa das famílias. É esse o indicador que importa — e é esse que continua nos máximos da série.
Metodologia. Inquéritos de opinião pública em Angola (Ovilongwa Consulting): Ronda 8 (2019, n≈2.400), Ronda 9 (2022, n≈1.200), Ronda 10 (2024, n≈1.200) — amostras nacionais presenciais e ponderadas — e Inquérito DTA (2024, n≈1.200), por marcação aleatória de dígitos junto de utilizadores de Internet, não ponderado. O Índice de Pobreza Vivida é a média de cinco itens (0=Nunca … 4=Sempre): 0=nenhuma; 0,1–1,0=baixa; 1,1–2,0=moderada; >2,0=elevada.
Fontes. Ovilongwa Consulting — inquéritos de opinião pública em Angola (Rondas 8, 9, 10 e Inquérito DTA, 2019–2024). Banco Mundial — Angola Economic Update (25/07/2025); Angola Poverty and Equity Brief (out. 2025). FMI — 2026 Article IV Consultation (08/05/2026). Lusa/VerAngola — declarações da UNITA (22/01/2026; 23/04/2026) e do MPLA (23/04/2026).